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PROPOSTA DE METAS FINANCEIRAS E CRESCIMENTO DE VENDAS

Atualizado: Jan 24

Um dilema para os dirigentes das empresas, e que gera muita tensão para estas definições, é articular as metas operacionais com as suas estratégias de negócios, como por exemplo uma meta financeira. Embora se possam se estabelecer diversas orientações, uma decisão frequente é a combinação da taxa de crescimento das vendas com a rentabilidade dos investimentos, como apontado pelo professor Gordon Donaldson em seu clássico artigo para a Harvard Business Review, que inclusive sugere o título de artigo. Para este dilema haverá ciclos e posicionamentos que orientarão as empresas para a busca do crescimento das vendas. Em outras condições, a prioridade será a própria rentabilidade. Neste caso, a garantia de resultados financeiros desejados para remunerar o investimento pode restringir as vendas pelo estabelecimento de margens de lucro superiores. A oportunidade de crescer em um mercado competitivo, onde a intensidade da concorrência na busca por mais clientes, ou pela própria manutenção dos clientes atuais, sugerem um cenário de menor lucratividade, principalmente pela pressão nos preços de venda ou ainda por necessidade custos adicionais relacionados às vendas.


Uma situação importante a ser analisada é justamente a condição das fontes de financiamento para sustentar uma ou outra situação. Divergências ocasionais são amplamente admitidas em relação às metas operacionais, porém o que é consensual é que a fonte de recursos para financiar as atividades da empresa é finita. Sua definição deve estar alinhada com a orientação estratégica da empresa. Essa escolha aponta para uma discussão clássica na área financeira, que é justamente o entendimento de qual deve ser a melhor proposta para a estrutura de capital das empresas.


Os estudos a respeito deste tema na área de finanças são inaugurados a partir de Modigliani e Miller[1] (1958) e a proposta (teórica) da irrelevância da estrutura de capital. Ou seja, sob certas circunstâncias, a escolha da fonte de recursos a partir de recursos próprios ou recursos de terceiros é indiferente. O ponto de inflexão do custo médio ponderado de capital seria, então, o nível ótimo de endividamento para uma empresa.


Porém, para desenvolver esta proposta, os autores estabeleceram um conjunto de pressupostos simplificadores da realidade, entre os quais estavam: a ausência de impostos, de custos de transação, e de spread de taxa de juros. E ainda uma hipotética capacidade ilimitada de financiamento para empresas e indivíduos. Nesse mundo idealizado, existiria alguma combinação entre capital próprio e de terceiros que minimizaria o custo de capital da empresa e, consequentemente, maximizaria o seu valor e as condições de retorno para os investimentos. Até então, acreditava-se que, dado o custo mais baixo do capital de terceiros em relação ao capital próprio, aumentar o endividamento da empresa deveria logicamente reduzir o custo médio ponderado de capital, pelo menos até certo ponto, e assim o risco da empresa estava concentrado na liquidez dos seus ativos para fazer frente aos compromissos com terceiros.


Analisando as movimentações financeiras das empresas brasileiras a partir dos últimos anos , verifica-se que as escolhas apontam para uma crença “imaginária” por parte das empresas e dos indivíduos, condição vislumbrada por Modigliani e Miller e não condiz com movimentos estratégicos adequados. Para ampliar está análise, devem ser considerados os fatores que justamente os consagrados autores “isolaram” na sua proposta ideal, vamos a eles:


Segundo o último Relatório de Economia Bancária e Crédito publicado pelo Banco Central do Brasil, em 2014, (Disponível em: https://www.bcb.gov.br/?id=SPREAD&ano=2014 )por sinal, o último relatório publicado até o momento, observou-se a continuidade do processo de expansão das operações de crédito do Sistema Financeiro Nacional (SFN), porém em ritmo moderado em relação ao ano anterior, com elevação das taxas de juros, acompanhado pela ampliação dos spreads, pela extensão dos prazos médios das contratações. Nesse contexto, o saldo das operações de crédito do sistema financeiro em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) atingiu 58,9%, ante 56,0%, em dezembro de 2013. Há dez anos, em dezembro de 2005 essa proporção era de 31,2%, ou seja, em dez anos, houve um acréscimo de aproximadamente 90% no saldo dos empréstimos em relação ao PIB, um crescimento considerável.


Deixando as questões referentes aos impostos para outra oportunidade (também é uma conversa longa!) e continuando a análise das condições do mercado de crédito e juros no Brasil, mais especificamente para a taxa bancária que normalmente atende as necessidades de financiamento de curto e de médio prazo do setor privado. Esta taxa é normalmente diferenciada de acordo com a qualidade de crédito de devedores e objetivos do financiamento, porém em comparação também pelos últimos dez anos com os chamados “BRICS” – acrônimo para os países que apresentam condições de desenvolvimento econômico similar ao nosso (será?), a distância destas condições expõem ainda mais a fragilidade das empresas brasileiras frente à possibilidade de compor como fonte de financiamento os recursos onerosos de terceiros, como mostra o gráfico a seguir elaborado a partir dos dados do Banco Mundial:



A comparação com esses países mostra uma evolução onde se percebe que a média dos juros dos empréstimos no mercado brasileiro chegou a ser em determinado período cinco vezes maior do que o segundo colocado. Em 2015 foi 10 vezes superior ao da China e pelo menos 3 vezes superior à vice-campeã Rússia, por exemplo. Vale lembrar que não é justa a comparação com os países desenvolvidos da Europa, com o Japão e com a EUA principalmente, onde o placar seria tão vexatório quanto o fatídico “7×1”.


A explicação por essa diferença entre os juros dos empréstimos praticados se dá pela composição do chamado Spread bancário, que em linhas gerais significa a diferença entre a taxa de captação aplicação dos recursos pelos bancos.



Pode-se atribuir aspectos estruturais relacionados às condições macroeconômicas, como taxa básica de juros (Selic) e inflação para essa discrepância, porém essa é uma abordagem apenas parcial. Grande parte deste valor de spread é referente ao próprio agente intermediário, ou seja, os Bancos.


A concentração de mercado e a competência dos agentes bancários explicam melhor esse fenômeno. Tal combinação propicia o que os economistas chamam de assimetria de informação ou condições assimétricas entre os agentes econômicos. Por um lado um agente, com informações favoráveis a respeito das tendências do mercado, dos aspectos legais, entre outros fatores – os bancos – que atua sobre outro agente – empresas e pessoas tomadoras de recursos- sem o mesmo conhecimento ou informação. São situações complexas, de difícil mensuração, mas o resultado disso é facilmente percebido com os resultados financeiros de cada setor nos últimos tempos. Em resumo, as condições de crescimento e disponibilidade de crédito não necessariamente favoreceram as empresas tomadoras de recursos nos últimos dez anos.


Esse é ponto. A assimetria de informação mencionada é um “custo de transação” para as empresas (exceto as empresas do setor financeiro). O entendimento e a escolha deste “custo” para formar a estrutura de capital da empresa é uma decisão estratégica. Para as condições descritas, a proposta de crescimento para as empresas deve considerar a alternativa de financiamento. A alternativa que surge neste cenário são os (re) investimentos a partir dos recursos gerados pelos resultados financeiros do próprio negócio. Considerar o planejamento estrutural do negócio, com a aplicação dos resultados obtidos (e limitados), pode estabelecer uma proposta de crescimento adequada aos ganhos projetados.


Naturalmente para que isso ocorra, é necessário que a empresa apresente lucros, e para apresentar lucros, a empresa deve escolher o caminho de seu crescimento e a sua orientação estratégica. Este ciclo é constante. A discussão é justamente a lógica do crescimento estabelecida. O que vem primeiro? As condições de estrutura de capital da empresa? As vendas? Os resultados? Entender estes movimentos é entender e estabelecer metas financeiras e uma estratégia de negócio autossustentável. Vale mais um ponto de reflexão a este dilema. Em contrapartida, a lógica do crescimento das empresas pode gerar fenômenos como o que foi publicado recentemente pelo jornal Britânico “The Guardian”, mostrando o fato de que a chance de adulto jovem de renda média comprar um imóvel naquele país encolheu pela metade nos últimos 20 anos. Fato devido à explosão dos preços dos imóveis e pelos salários proporcionalmente baixos em relação a geração anterior. Demonstrando talvez que o crescimento das empresas não necessariamente significa um aumento da riqueza, inclusive dos recursos de trabalho. Devido a isso talvez devemos considerar que as propostas teóricas e as críticas aos tradicionais modelos de estrutura de capital mencionados aqui não levaram em conta um fenômeno que estamos tendo o privilegio de viver atualmente. As pessoas estão compartilhando seus imóveis, seus automóveis, seus equipamentos e até o seu local de trabalho, podendo causar impactos em setores tradicionais do sistema econômico. A economia colaborativa já está mudando o modo como organizamos a nossa vida econômica, oferecendo a oportunidade de se reduzir drasticamente os seus custos marginais. Dado todo este contexto, vale o questionamento. Qual a nova lógica de crescimento para as empresas no Brasil? E ainda em tempo, estamos prontos para esta nova realidade?


Luiz Eduardo Lanzini é consultor e sócio da Trajetória Consultoria



[1] Franco Modigliani (1918-2003) e Merton Howard Miller (1923-1997). Ambos ganhadores do Premio Nobel de Economia em 1985 e 1990 respectivamente por suas contribuições às Finanças Corporativas.

[2]Saiba mais: http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,empresas-renegociam-r-420-bi-em-dividas,10000060781

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